v. 40 n. 89 (2025)
APRESENTAÇÃO
A Revista da Escola Superior de Guerra, publicação vinculada ao Instituto Therezinha de Castro (ITC) e ao Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID), proporciona – como temas de concentração – Defesa, Segurança Internacional, Relações Internacionais, Ciência Política e outros recortes desses núcleos que com eles dialoguem. Priorizamos temas atuais cujos olhares críticos estão sendo forjados concomitante aos acontecimentos e às urgências que deles emanam. O passado, no entanto, é história vivida e suporte do presente. Portanto, não deixamos de evocar autores e fatos do passado que, comparados com os de hoje, nos fazem compreender a agoridade e procurar acertar as ações do que vem para frente. Simone de Beauvoir, com outras palavras, ratifica que o fugidio presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação.
A coletânea de artigos selecionados pelos nossos pareceristas e pela Equipe Editorial apresenta coerência temática e permite uma disposição de textos, que começa com o mar e a defesa do território nacional, passa pelos fundamentos históricos e jurídicos da defesa, e chega aos conflitos contemporâneos e seus impactos geopolíticos e humanos. Com esse painel múltiplo e interdisciplinar, pretendemos mostrar o quanto a defesa, a segurança internacional e as relações internacionais vão além dos muros disciplinares estabelecidos e o quanto desejamos oferecer ao nosso leitor textos sobre óticas diversas e convergentes.
Este número abre com o artigo Exposição TransforMAR: divulgação científica e fortalecimento identitário dos pescadores artesanais da Baía de Guanabara, de Jamylle de Almeida Ferreira, exposição da qual a ESG, por meio da Revista, participou. O texto exibe a noção de defesa para além do campo estritamente militar, articulando soberania, meio ambiente, ciência e identidade comunitária, tendo como atores a Baía de Guanabara e os pescadores artesanais, introduzindo, com isso, um aspecto de defesa ampliada, em que a preservação ambiental, a memória institucional e o pertencimento social são compreendidos como dimensões estratégicas do território. Funciona, portanto, como um marco ético e político para os textos subsequentes.
O segundo texto, O Uso da Inteligência Artificial no Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SISGAAZ): oportunidades e desafios, de Rachel Soares, Thays Oliveira e Isadora Braga, aprofunda a discussão sobre o mar como espaço estratégico, agora sob a ótica da tecnologia e da defesa nacional. O estudo articula soberania, inovação e vigilância, demonstrando como a Inteligência Artificial pode potencializar o monitoramento da Amazônia Azul, se usada de maneira correta. O texto dialoga diretamente com o artigo anterior ao mostrar que proteção ambiental e segurança nacional não são agendas opostas, mas complementares no século XXI.
O texto seguinte, A Legitimidade e Legalidade da Espionagem Internacional na Visão de Grotius, Hobbes e Oppenheim: uma análise exploratória, de Alfredo Ribeiro Pereira, ressalta papel fundacional ao oferecer um lastro teórico-jurídico para práticas centrais da segurança e da defesa. Ele utiliza teóricos clássicos do pensamento político e do Direito Internacional e estabelece o liame da tradição e contemporaneidade, concedendo categorias analíticas capazes de auxiliar na compreensão dos sistemas tecnológicos modernos e, também, dos conflitos interestatais discutidos nos artigos posteriores.
O próximo artigo, A Missão Militar Francesa de Aviação no Brasil: a influência da França em uma nova arma do exército brasileiro (1918–1932), assinado por Benoît Pouzoulet, Carlos Alberto Rattmann e Guilherme Sandoval Góes, consagra o eixo histórico-militar deste número, analisando a Missão Militar Francesa de Aviação. O texto lança luzes sobre os processos de transferência de saberes militares, dependência tecnológica e influência estrangeira na formação das Forças Armadas brasileiras. A análise histórica contribui para compreender dilemas atuais da defesa nacional, especialmente no âmbito da autonomia estratégica.
O quinto artigo, A Correlação de Forças Político-Econômicas Durante o Estado Novo (1937–1945) e a Participação Brasileira na Segunda Guerra Mundial, de Demétrius Morales Garcia, Humberto José Lourenção e Gisele Heloise Barbosa, beirando a sequência dos demais artigos deste periódico, proporciona a análise da inserção do Brasil em conflitos globais, destacando as tensões internas, ideológicas e econômicas do Estado Novo. O texto contribui para a compreensão da construção da soberania brasileira em contexto de guerra e modernização do Estado, dando prosseguimento aos debates contemporâneos sobre alinhamentos internacionais.
O sexto texto, A Indústria Espacial Russa: entre o legado e a modernização, de Luciano Vaz Ferreira, traça o entrecruzamento entre o passado e o presente, trazendo a análise histórica para o campo da alta tecnologia e da geopolítica contemporânea. O artigo, por meio da indústria espacial russa, ilumina os limites estruturais herdados da Guerra Fria e seus impactos estratégicos atuais, anunciando os próximos dois artigos sobre o conflito russo-ucraniano.
O sétimo texto, As Violações de Direitos Humanos na Invasão Russo-Ucraniana: reflexos da Guerra Fria no cenário atual, de Caio Silva Guimarães e Raimundo Augusto Fernandes Neto, adentra no conflito russo-ucraniano, abordando suas consequências humanitárias e jurídicas. Ele associa geopolítica, memória da Guerra Fria e Direito Internacional, realçando a persistência de lógicas de confronto do século XX no cenário do século XXI, focando nos marcos normativos e nos direitos humanos.
O artigo Trauma, Soberania e Geopolítica: os impactos psicossociais do conflito russo-ucraniano e os desafios para o Brasil, de Eduardo Rizzatti Salomão, encerra este número desviando o olhar do plano estratégico para o plano humano e psicossocial, mirando a dimensão geopolítica. Ao refletir sobre os impactos do conflito e suas implicações para o Brasil, o texto lega-nos um pensamento além do vencedor e do vencido, um pensamento humano que não pode ser abandonado. O autor revolve temas como soberania, diplomacia e responsabilidade internacional: um final continuativo, tanto na revista como no tema, ratificando a ideia de que guerra e defesa ultrapassam o campo militar e atingem profundamente as sociedades.
Que todos os leitores desfrutem do prazer dos textos!
Maria Célia Barbosa Reis da Silva





