v. 32 n. 66 (2017)

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 Editorial

 

 O ponto quase final de cada edição de uma revista científica é decorrente de um trabalho conjunto e harmônico entre editor, Conselho Editorial, Conselho de Pareceristas, autores e revisores de língua portuguesa, inglesa e espanhola. Usamos “quase” porque o ponto final, se o há, só é posto pelo leitor que completa os textos com o seu olhar, com a sua crítica. Legamos ao nosso público a tarefa de inserir os pontos a partir dos vários olhares lançados sobre os oito artigos que agora lhe pertencem. Qualquer escrito só se consolida com a leitura do outro. Não escrevemos para engavetar textos, exercitamos esse ato endereçado ao pesquisador, estudioso ou ledor.

No final dos minicurrículos de cada autor, há o endereço eletrônico com o fito de instigar o diálogo entre as partes envolvidas. Visamos, por conseguinte, à aproximação entre os que dedicam parte do seu tempo ao trabalho acadêmico-intelectual, ao estudo e à descoberta de novos conhecimentos e à divulgação do resultado de suas investigações. Acreditamos que a Ciência não pode ficar isolada em um feudo, restrito a poucos, mas que ela deve ser compartilhada entre muitos. Esta Revista, como outras cujos estudos têm afinidades, persegue a missão de transmitir à sociedade e à academia os resultados de estudos e pesquisas. Com o recém-criado Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID) da Escola Superior de Guerra (ESG), nosso periódico adquire uma das finalidades basilares de um Programa em processo de avaliação: divulgar artigos de professores e alunos do Programa, da Escola e de outras Instituições de Ensino Superior que possuam estudos congêneres à nossa linha editorial

Este fascículo apresenta oito artigos que foram agrupados por peculiaridades diversas. Os dois primeiros artigos são bilíngues: Português e Inglês. Num futuro próximo, aumentaremos o número de artigos traduzidos do Português para o Inglês e para o Espanhol, almejando conquistar leitores de outras partes do planeta e, principalmente, os latino-americanos. Luiz Fumiaki Miwa, no primeiro artigo nomeado O processo de integração regional na América do Sul: uma abordagem do ponto de vista político-estratégico (The process of regional integration in South America: an approach from a political-strategic point of view), elabora uma análise político-estratégica acerca da integração da América do Sul como exemplo para a construção de um mundo menos bélico e mais harmonioso. A região da qual fazemos parte tem demonstrado essa índole pacífica por meio, entre outras ações, da criação do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e da União de Nações Sul-americanas (UNASUL).

O segundo artigo, escrito originalmente em Inglês com o título When soldiers and traffickers clash: explaining violence against the State during Operation São Francisco, traduzido para o Português como Quando soldados e traficantes se chocam: explicando a violência contra o Estado durante a Operação São Francisco, assinado por Henrique Siniciato Terra Garbino e Adriana Erthal Abdenur, traz à tona tema cotidiano na mídia brasileira, principalmente nas grandes cidades: o embate entre soldados e traficantes. Os autores têm como recorte a Operação São Francisco, na qual um dos autores Henrique Siniciato atuou como Comandante de Pelotão de Engenharia da Força de Pacificação, fato que não inviabiliza o olhar científico dos pesquisadores: a prática vertida para ciência. Os articulistas apresentam duas ideias aparentemente conflitantes: “o número de homicídios atribuídos a cartéis supera as mortes em muitas guerras civis. Contudo, como o texto demostra, conflitos entre cartel e Estado são a forma mais rara de violência relacionada a drogas”.

Os dois artigos subsequentes tecem um trabalho de memória que envolve a lembrança e o esquecimento. Jaqueline Santos Barradas e Jamylle de Almeida Ferreira assinam o estudo intitulado Memória Institucional na Escola Superior de Guerra: resultados preliminares e nele refazem parte da trajetória da Escola Superior de Guerra de 1949, data da concepção da Escola, a 2014, ano da criação da Memória Institucional, um setor do Centro de Conhecimento Científico e Cultural (C4). Memórias de Guerra: entre comemorar ou esquecer: o imaginário da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (1864-1870) como dificultador do processo de integração do MERCOSUL, de Edgley Pereira de Paula, é texto que revolve a Guerra do Paraguai da memória e, ainda, possibilita um diálogo com o primeiro artigo no que tange à integração da América do Sul. O autor discorre sobre o pensamento de curto-prazo (curtoprazismo) frente à tecnologia de informação de nossa época, os big data. “Esses conjuntos de dados, organizados, seriados no tempo e no espaço, podem apresentar novas análises e novos caminhos a seguir”.

            Os dois artigos consecutivos abordam assuntos que dizem respeito aos anseios estratégicos da Defesa Nacional. O quinto artigo, A infraestrutura Nacional e o atendimento às necessidades Estratégicas da Defesa Nacional, de autoria de Anselmo de Oliveira Rodrigues e Eduardo Xavier Ferreira Glaser Mignon, questiona e a infraestrutura de transportes no estado do Paraná utiliza a metodologia adequada ao contexto atual dos interesses da Defesa Nacional. O sexto artigo, Publicações Técnicas e a segurança de voo: uma apresentação do contexto da Força Aérea Brasileira, de Ana Patrícia Guimarães em parceria com Maria Célia Barbosa Reis da Silva, evidencia o quanto é fundamental a leitura dos documentos da área de manutenção técnica e a atualização e o uso correto das Publicações Técnicas para a segurança de voo e, por extensão, para a Defesa Nacional.

            O dois textos finais, com caminhos e abordagens diferentes, instituem o elo (ou o dialogismo) entre a Filosofia e na Ética. O título do sétimo texto, Relações político-militares entre 1964 e 1985: o desvelar de duas vocações, enuncia as reflexões de José Cimar Rodrigues Filho acerca das relações entre civis e militares no período em que o País foi governado pelos militares. O autor declara que, ao longo de sua pesquisa “deparou-se com uma questão incidental contraditória com hipótese aventada de que houve intenção dos governantes de afastar os militares da política, qual seja: como poderiam aqueles mandatários adotar tal atitude estando tão envolvidos nessa atividade?” O texto tem como suporte metodológico os critérios usados por Max Weber, e Rodrigues Filho associa ainda militares, ética e vocação política.

            O último texto intitulado Comunidade ética e intersubjetividade em Lima Vaz foi desenvolvido por Renon Pessoa Fonseca à época em que o autor era estagiário do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia, oferecido pela Escola Superior de Guerra. O trabalho propicia uma compreensão do pensamento filósofo do brasileiro Henrique Claudio de Lima Vaz no que diz respeito ao restabelecimento da relação entre ética e política. Por esses meandros, Renon, guiado por Lima Vaz, ressalta “a categoria intersubjetividade, instauradora da sociabilidade humana por meio do reconhecimento e do consenso que promove entre os homens no seio da comunidade ética, onde o ethos assim construído assegura a solidez do agrupamento estatal”.

 

As temáticas em pauta neste número mobilizam-nos a pensar o Brasil e o mundo circundante. Desejamos que a leitura deste exemplar lhes seja proveitosa e estimule novos autores a fazer parte, como escritores ou como leitores, da Revista da Escola Superior de Guerra.

 

                                                                                                           

Publicado: 08-08-2020

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