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  • v. 35 n. 73 (2020)

            O número 73, volume 35 da Revista da Escola Superior de Guerra, em sintonia com o derredor, sai emocionalmente comovido com a pandemia do Coronavírus e da sua versão Covid 19, que atingiu duramente quase todas as latitudes do nosso planeta. O Brasil vive momento agudo de subida da curva. Todos nós, de alguma forma, sabemos que, pós período pandêmico, nada será como antes. Acontecimentos, como este, deixam sequelas e ensinamentos para a humanidade. A Comunidade Científica de qualquer área se move na corrida para a descoberta de testes e de vacinas, que poderão restituir um pouco de normalidade e tranquilidade ao homem.
            Na maioria dos debates midiáticos e virtuais, os impactos da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) nas relações internacionais e na geopolítica – fechamento de fronteiras, xenofobia e nos seus desdobramentos econômicos e políticos mundiais são mencionados e são objetos de análise. Sabe-se do enfrentamento que a América Latina tem no futuro próximo: os novos desafios de um mundo globalizado e em mudança, especialmente diante de uma pandemia, igualmente globalizada. As economias do mundo sofreram grandes reveses e, em particular, a economia latino-americana. Muitas famílias perderam entes queridos, amigos, conhecidos, vizinhos. O toque físico distanciou-se, mas o afeto e a empatia talvez tenham se estreitado. Esta revista registra nossa solidariedade com o povo brasileiro e com os demais habitantes do planeta que sofreram e sofrem as intempéries trazidas com este vírus e desejamos que, muito breve, voltemos a uma normalidade amistosa, com interesses comuns. Ainda mais: o número 73 sai com atraso, porque mudamos o meio de comunicação entre os atores da Revista (editores, autores, pareceristas etc.) o que ocasionou um impacto na entrega para o grande público deste número.
            Com o espírito aberto às novas pesquisas, aos novos artigos que delas advêm, apresentamos nosso periódico do primeiro quadrimestre de 2020. Os dois artigos iniciais tratam de gerenciamento de crises de diferentes naturezas. O texto inicial – Logística humanitária: uma análise da atuação das Forças Armadas Brasileiras em resposta ao desastre natural na Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011, de Aniele dos Santos Farroco e Isabella Sequetto Terror, aborda a capacidade de auxílio das Forças Armadas em situações de coordenação de crise, tendo como exemplo o desastre da Região Serrana do Rio de Janeiro, causado pelas fortes chuvas. O segundo estudo O gerenciamento de uma situação de crise: o caso da Operação de Resgate de reféns “Chavín de Huantar” em 1997, Lima (Peru), assinado por William Arturo Vega Mendoza, Helmut Ramírez Braun e Leonardo Perin Vichi, descreve a gestão de uma crise por parte do Governo Peruano diante da operação de resgate de reféns na Embaixada do Japão, que fora tomada pelo Movimento Revolucionário Tupac Amaru em 1996. O texto detalha cada passo do Governo frente à situação, bem como o que pôde ser aprendido com o desenrolar do caso.
            A terceira pesquisa redunda numa escritura denominada, A Organização para cooperação de Xangai e o combate ao terrorismo: contribuições para a relação indo-paquistanesa, cujos autores Matheus Moraes Alves Marreiro e Ricardo Pereira Cabral, diante da problemática do antiterrorismo, buscam investigar a Organização para cooperação de Xangai e o contexto conflitante de países recém integrados na organização, que apresentam uma rivalidade desde sua formação como Estados Modernos, em decorrência da disputa de território da região de Jammu e Caxemira.
            O quarto artigo em três versões (Português, Espanhol e Inglês) – Agricultura como componente da Política de Segurança Nacional Brasileira, de Daniel Vidal Pérez e Fortunato Lobo Lameiras – traz à tona como o drama advindo da fome pode superar as mortes em uma guerra convencional e, portanto, o quanto “a alimentação de uma nação deveria ser considerada como assunto da Segurança Nacional”. Este texto alarga o conceito de questão alimentar para o âmbito da Segurança Nacional. O quinto artigo, Segurança e Defesa no Brasil: desafios complexos e a demanda por respostas integradas, de Daniel Mendes Aguiar Santos, Fernando Augusto Valentini da Silva e Alexandre dos Santos Gallera, segue o escopo do texto anterior, trata de esforços contributivos para o incremento do nível de Segurança Nacional e tem o objetivo de examinar os principais desafios e respostas que têm transpassado o espectro da Segurança e Defesa no Brasil. Também o sexto estudo – Estratégia de defesa e os reflexos na Indústria de Defesa: o modelo norte-americano e as perspectivas brasileiras, de Idunalvo Mariano A. Jr e Tássio Franchi – continua no campo de Defesa, e adota o caminho da comparação. Dessa forma, põem lado a lado o modelo brasileiro com o modelo norte-americano, indicando a seguir que o Brasil possui uma sistemática, e não um modelo propriamente dito.
            O sétimo texto O pensamento militar no projeto Brasil grande potência, de João Miguel Villas-Bôas Barcellos, alega que as Forças Armadas, em sua modalidade política e estratégica, tiveram um papel no projeto de modernização e desenvolvimento nacional. O texto analisa as principais ideias e momentos em que as Forças, e principalmente o Exército brasileiro, se colocaram diante da responsabilidade desse processo de modernização.
            Encerrando este número, ainda com Segurança Nacional na vitrine, há um texto que convida o leitor a fazer Uma abordagem crítica acerca do Processo Educacional Brasileiro, enquanto instrumento de Segurança Nacional. O autor Jorge Arantes realiza um questionamento diverso do elástico tema da educação e de sua importância para a formação da cidadania do povo que o torna instrumento vital para Segurança Nacional do país.
            Almejamos que estes artigos propiciem aos leitores o prazer do texto, tão apregoado pelo escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês Roland Barthes.

                                                                                                                                   Maria Célia Barbosa Reis da Silva

  • v. 34 n. 72 (2019)

            A revista número 72, volume 34, última de 2019, é entregue ao leitor em ritmo das festas de fim de ano, demarcadas pelo calendário ocidental, de encerramento e início de ciclo, portanto, de renovadas esperanças no plano pessoal e acadêmico. Artigos inéditos, para composição do próximo exemplar correspondente ao número 73, volume 35, já estão sob submissão no Open Journal Systems (OJS) no site do periódico.

            A Revista da Escola Superior de Guerra e a Editora que a abriga almejam por meio de sua equipe externar tanto a satisfação do trabalho conjunto realizado com nossos colaboradores: da própria equipe editorial, bibliotecários, estagiários, pareceristas, autores e leitores quanto desejar a esses atores um ano promissor e a manutenção dessa parceria.

            Publicada desde 1983, a revista apresenta cunho científico, periodicidade quadrimestral e, a partir do número anterior, exibe uma capa menos pessoal e mais científica, em que estão impressas, de forma explícita ou implícita, a linha do periódico e do Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa desta Instituição.

            Os dois artigos iniciais tangenciam assuntos estratégicos. No artigo Instalação do Espaçoporto dos Açores e a concorrência com Alcântara: estudos, considerações e os seus reflexos para o Brasil, os autores Rui Carlos Botelho Almeida da Silva e Ademir Luiz Xavier Júnior explicam a proposta do Centro Internacional de Pesquisa do Atlântico, iniciativa de alguns países banhados pelo Oceano Atlântico, com liderança e iniciativa do governo de Portugal e com sede no Arquipélago de Açores, o Centro visa estabelecer um consórcio oferecendo aos países partícipes sua infraestrutura para futuras pesquisas. Os articulistas debatem sobre a participação do Brasil nessa empreitada. O segundo artigo – Brasil: uma grande estratégia para o século XXI, assinado por Valdecir Gregory e Anselmo de Oliveira Rodrigues, discorre sobre a necessidade de uma estratégia capaz de traduzir os anseios da nação. A análise geopolítica conjugada à evolução do pensamento estratégico poderá auxiliar na construção da grande estratégia para o País.

            O artigo subsequente – Facilitadores e barreiras na integração entre planejamento e orçamento de defesa na Marinha do Brasil –, de Paulo Cezar Tonacio Junior, de certa feita, entrecruza a questão orçamentária com estratégia no âmbito da Marinha do Brasil. Num contexto de mutações constantes e demandas crescentes, as organizações públicas precisam de ferramentas para continuar suas atividades em direção à sua finalidade social. O texto, comentado neste parágrafo, investiga “a integração entre planejamento e orçamento, tendo atenção especial à área de defesa, com escopo na Marinha do Brasil (MB).”
            O texto Góis Monteiro, Backheuser e Travassos: uma análise do plano de guerra de 1938 e sua relação com o pensamento geopolítico brasileiro na Era Vargas, rubricado por Alexandre Santos Gallera e Gregor G. A. A. de Rooy, proporciona, por meio da análise de conteúdo, uma abordagem entre semelhanças e diferenças das ideias expostas por esses três teóricos da geopolítica através dos respectivos
    escritos.

            Douglas Rocha Almeida e Fábio Albergaria de Queiroz, em Uma análise construtivista da democratização em Taiwan: problemas estruturais e fatores externos (1991-2001), discorrem como a democracia pode sobrepor-se a culturas, a ela adversas, como o islamismo e o confucionismo. Usando “o construtivismo
    de Alexander Wendt como referencial teórico-conceitual, os articulistas abordam a identidade e os interesses de Taiwan e investigam como a identidade-tipo mudou do campo do autoritarismo para o da democracia.”

            Os três textos que fecham esta edição versam sobre Direito e assuntos correlatos. Rodrigo de Almeida Paim e Rodrigo Lima França, elaboradores do artigo Operações de Garantia da Lei e da Ordem e de Faixa de Fronteira: uma breve análise do ordenamento jurídico atual, propõem apreciar, segundo o ordenamento
    jurídico, as Operações Militares, principalmente as realizadas na Faixa de Fronteira. Os articulistas visam conceder apoio investigativo aos operadores do Direito, “bem como na lida diária dos militares envolvidos na execução das diversas Operações sob responsabilidade do Exército.” O penúltimo texto Aplicação do
    Direito Internacional dos Conflitos Armados na guerra aérea e o ataque pontual com aeronaves remotamente pilotadas, de Webert Leandro Barreto da Silva e Ivan Muniz de Mesquita, “tem como finalidade demonstrar como a Guerra Aérea se perfaz diante do Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA), sobretudo quando existe um ataque direto com Aeronaves Remotamente Pilotadas. ” Ressalta o quanto as nações devem obedecer ao DICA em relação aos compromissos humanitários e morais comum às civilizações não acometidas pela barbárie. O último texto – Solução de controvérsias por meio da arbitragem como estratégia em contratos de tecnologia do setor de Defesa –, de Lenilton Duran Pinto Corrêa,
    Mauro Catharino Vieira da Luz e Eduardo Winter, argumenta como a arbitragem pode ser uma solução possível em controvérsias de conteúdo técnico e, assim, ser acatada como ferramenta estratégica em contratos de tecnologia do setor de Defesa Nacional. Investiga, também, a aplicabilidade jurídica da arbitragem em contratos de tecnologia no setor de Defesa.
            Estamos, pois, diante de uma revista, que, por ser composta de oito artigos de autores com perfis acadêmicos diferentes, deseja estimular debates, outras leituras e, quem sabe, a feitura de um outro texto sobre o mesmo tema, porém com um outro olhar.

           Reiteramos que nossa revista é de divulgação gratuita, todos podem acessá-la. Alertamos, também, que a submissão é contínua e segue os trâmites inerentes às revistas científicas.
            Boa leitura e estamos à disposição de articulistas!
    Maria Célia Barbosa Reis da Silva

  • v. 34 n. 71 (2019)

    Editorial

              Desde 1983, a Revista da Escola Superior de Guerra vem cumprindo sua missão de divulgar trabalhos da própria Escola, de Instituições congêneres e de demais Agremiações Acadêmicas do Brasil e do exterior. O compromisso com a cientificidade provocou transformações, acomodações e atualizações com intuito de acompanhar a célere evolução científica e tecnológica e, também, de obter, a cada exemplar, sua qualidade reconhecida pelo órgão responsável pela avaliação e estratificação das revistas científicas: Qualis-Periódicos ou Qualis/CAPES, mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de NívelSuperior (CAPES). Tornou-se, portanto, quadrimestral; alargou a participaçãode autores de outros estados e do exterior e continuamos em busca de aprimoramento para nossa revista.

              Entre as linhas editoriais prezadas pelo periódico, há duas multifacetadas que estão constantemente na nossa órbita editorial: Defesa e Segurança Nacionais. Neste número, o leque de temas ligados a esse binômio ampliou-se para caminhos que há muito não constam do nosso sumário: saúde alimentar e transversalização de gêneros no meio militar, a mulher militar. Tal fato nos levou a evocar esses temas para abrirem o segundo periódico de 2019.

              Em Capacidade em defesa alimentar nas Forças Armadas Brasileiras: abordagem sistêmica, os autores Fernanda Carvalho Peixoto e Cristiano Barros de Melo discorrem sobre a vulnerabilidade das reservas de água e de alimento e como o colapso no fornecimento dessas reservas pode ser usado como importante meio de desestabilização e dissuasão de uma força militar. A capacidade em defesa alimentar é observada de modo sistêmico e representa fator determinante na sustentação e apoio ao combate. O artigo subsequente – Transversalização de gênero nas Forças Armadas Brasileiras: uma abordagem multicultural, produzido por Aldner Peres de Oliveira e Rejane Pinto Costa – objetiva conferir, sob o método científico do multiculturalismo, como a transversalização de gênero, a presença da mulher militar, que tem sido assimilada pelas Forças Armadas brasileiras e “seu impacto na segurança, defesa e desenvolvimentos nacionais”.

              Os dois textos ulteriores dialogam por meio da tecnologia e da ciência, e a partir delas ganham rumo próprio. O terceiro – Uma proposta do relacionamento entre a guerra cibernética e o terrorismo no contexto informacional e seus reflexos para as infraestruturas críticas –, de Dardano do Nascimento Mota e de Fernanda Antônia da Mota, traz para debate uma análise sobre a possível analogia entre o terrorismo e a guerra cibernética no âmbito informacional. O quarto artigo – E-bomb na defesa nuclear do Exército Brasileiro em cenários de guerra: uma análise sobre a relação ciência, tecnologia e poder nos séculos XX e XXI, advém das pesquisas de pós-doutorado realizadas por Fernanda das Graças Correa. Este texto, com base na política internacional, expande o debate acerca do desenvolvimento de bombas de pulso eletromagnéticas, como arma dissuasória possível de ser empregada na defesa nuclear do Exército Brasileiro.

              Ainda no eixo segurança e defesa, o estudo de Flávio Diniz Pereira e Patrícia de Oliveira Matos faz um recorte direcionado à Amazônia e ao Atlântico Sul. O quinto texto Segurança e Defesa na Amazônia, no Atlântico Sul e o Poder Aeroespacial aborda o quanto essas áreas estratégicas e as riquezas nelas existentes necessitam ser protegidas, conforme descreve a Política de Defesa Nacional.

              José Cimar Rodrigues Pinto, no sexto texto, Apogeu, ruptura e ocaso do intervencionismo armado no Brasil, “entrega” ao leitor uma instigante afirmação: “O Brasil até a instauração do Regime Civil e Militar de 31 de março de 1964 conviveu com o golpismo militar, o qual assolou todo o período republicano e contribuiu para corromper qualquer pretensão democrática no Brasil”.

              O sétimo artigo intitulado A contribuição de San Tiago Dantas para a democracia, autonomia e desenvolvimento do Brasil, de Amauri Pereira Leite e Eurico de Lima Figueiredo, tece uma análise da obra do Professor Williams da Silva Gonçalves sobre o ideário e a contribuição de San Tiago Dantas para a formação da matriz teórica do pensamento social e político do Brasil.

              O artigo que encerra este exemplar aborda uma temática em voga nas mídias há algum tempo. A corrupção enquanto fenômeno mundial e fonte de financiamento das novas guerras retrata, como os demais artigos desta revista, o olhar e a análise de seu autor. Reis Friede analisa aspectos próprios da corrupção no cenário brasileiro no âmbito da Operação Lava Jato, assim como, de forma comparativa-dedutiva associa a corrupção às “Novas Guerras”.

              Estamos, pois, diante de uma revista que, por ser composta de artigos de vários autores com perfis acadêmicos diferentes, é capaz de incitar, a cada artigo, debates, outras leituras e, quem sabe, a feitura de um outro texto sobre o mesmo tema, porém com um outro olhar. Todos os artigos, no entanto, conduzem à célula-mãe: a Defesa.

              Boa leitura e estamos à disposição de articulistas!

    Maria Célia Barbosa Reis da Silva

  • v. 34 n. 70 (2019)

    EDITORIAL

    A revista do primeiro quadrimestre de 2019, número 70, volume 34, tem um significado histórico, pois abre o ano em que a Escola Superior de Guerra (ESG) completará setenta anos, no próximo dia 20 de agosto e entrega ao leitor uma coletânea de oito artigos, focados nas temáticas de defesa, segurança e desenvolvimento: todos, portanto, abordam a Escola Superior de Guerra e sua vocação de estudar o Brasil para melhor servi-lo.

    A Escola, desde sua fundação em 1949, foi pensada como um espaço de reflexão sobre o Brasil, congregando militares e civis de diferentes formações, homens e mulheres, tais como Carlos de Meira Mattos, Golbery do Couto e Silva e Therezinha de Castro, isso só para citar três exemplos de um plantel de pesquisadores e professores que deixaram sua contribuição acadêmica, por meio de reflexões percucientes sobre geopolítica, defesa e a segurança do Brasil no contexto do Sistema Internacional.

    Seguindo a linha editorial da Revista da Escola Superior de Guerra, numa gratificante parceria entre autores, leitores e colaboradores, a equipe da Editora da Escola agradece a submissão dos artigos elencados abaixo, que, após a aprovação de experientes pareceristas e aprovação de nosso Conselho Editorial, são colocados à disposição da comunidade acadêmica e do público em geral.

    O primeiro artigo, de autoria de Guilherme Sandoval Góes e Paulo Fagundes Visentini, tem o objetivo de examinar a evolução do pensamento geopolítico brasileiro à luz dos grandes geopolíticos da Escola Superior de Guerra, ao longo desses setenta anos de sua existência. Para tanto, pretende analisar três grandes eixos epistemológicos aglutinadores do pensamento da Escola Superior de Guerra: a Segurança, o Desenvolvimento e a Geopolítica, cuja conexão é identificada de forma científica. Em consequência, um dos grandes desafios do presente artigo é desvelar as bases teóricas de um possível projeto geopolítico autóctone do Estado brasileiro.

    No artigo subsequente, Rodrigo Lentz comenta que, ao menos desde 1985, os militares brasileiros estavam afastados do protagonismo político, entretanto, nos dias atuais, passaram a participar ativamente do poder político nacional.

    Pontua que, embora jamais deixassem de “fazer política”, o recente “regresso à proa” (grifos do autor) veio acompanhado de traumas políticos com o regime de 1964 e um profundo desconhecimento sobre o que, afinal, pensam os militares pós-1985. Nesse sentido, Lentz busca preencher uma lacuna de sistematização do pensamento político dos militares a partir do Manual Básico da Escola Superior de Guerra, que ele considera o principal documento político doutrinário das Forças Armadas.

    Lentz comenta que, após uma breve revisão dos estudos pioneiros, é proposta uma categorização da chamada Doutrina de Segurança Nacional, segundo as versões do Manual Básico de 1975 (governo Geisel) e de 1983 (governo Figueiredo). Essa categorização define os núcleos normativo, político e instrumental do pensamento e como cada um deles aborda os grandes temas da ciência política.

    Segundo o autor, seu estudo objetiva conferir maior clareza conceitual a uma tradição de pensamento político que possibilite análises comparativas sobre permanências e descontinuidades no atual pensamento e, assim, identificar os fundamentais desafios à democracia que o apresente.

    No terceiro artigo, intitulado O Cruzeiro e a Corrente, Gilberto de Souza Vianna discorre sobre a Escola Superior de Guerra, lembrando que a Instituição nasceu como fruto da aproximação dos Estados Unidos (EUA) com o Brasil, durante a Primeira Guerra Mundial e consolidada na Segunda Grande Guerra, sendo considerada como “filha” (grifo do autor) do War College, mas que, no entanto, se tornou diferente da congênere americana.

    Vianna comenta que a principal diferença entre as duas escolas está no fato de que a ESG, além de ser uma Escola de altos estudos, converteu-se em protagonista de uma rede de sociabilidade e confiança nacional, visando multiplicar, de forma objetiva, os conhecimentos produzidos na Instituição, chegando mesmo a ser uma máquina de hegemonia, pois, por meio da rede formada pela Escola Superior de Guerra e a Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ESG-ADESG), divulgou os ensinamentos da Escola por todo território nacional.

    No quarto artigo, Gilvan Charles Cerqueira de Araújo aborda a Geoestratégia como um dos ramos mais profícuos dos estudos geopolíticos, pois envolve, entre outras questões, áreas como a economia, etnografia, geomorfologia, sociologia e outras ciências correlatas à Geografia aplicada ao poder territorial.

    Cerqueira apresenta algumas destas questões envolvendo a Geoestratégia no caso do território brasileiro, que, segundo o autor, passou por diferentes visões e propostas de domínio, controle e exploração, especialmente no período de vigência do Regime Militar, pós-período desenvolvimentista e espera, com a discussão proposta, apresentar uma colaboração para os estudos geoestratégicos, especialmente aqueles envolvendo o espaço geográfico brasileiro.

    No artigo seguinte, intitulado “Escola Superior de Guerra (1973-1974): utopia, memória e presente”, Eduardo Rizzatti Salomão discorre sobre a tentativa frustrada de se transferir a ESG para Brasília na década de 70.

    Salomão comenta que as ruínas das fundações da edificação que acolheria a Escola Superior de Guerra, na sua transferência do Rio de Janeiro para Brasília, repousam às margens do lago Paranoá.

    Relembra que o projeto arquitetônico, adotado nos anos 1970, é de autoria do arquiteto Sergio Bernardes, e visava atender ao propósito de reintegrar a renomada instituição brasileira de estudos estratégicos de políticas de defesa ao centro do poder político nacional.

    Pontua que, com essa intenção, a nova sede almejava inserir a ESG no ambiente acadêmico do Distrito Federal ao situá-la nas proximidades da Universidade de Brasília (UnB). Patrimônio abandonado às intempéries, o cimento moldado pela concepção de Bernardes sobreviveu por décadas para provocar reflexões, no momento presente, em que o Ministério da Defesa (MD) baixou como diretriz a instalação da sede principal da ESG em Brasília.

    Neste artigo, Salomão apresenta os resultados da pesquisa sobre a memória e o passado de experiência dos acontecimentos que levaram à condenação do projeto de Bernardes. O problema que norteou o estudo é a tentativa de compreensão das razões que conduziram ao cancelamento das obras, inserindo, nessa discussão, as reflexões sobre o lugar que as ruínas ocupam na história e na memória nacional.

    No sexto artigo, intitulado “Escola Superior de Guerra: os caminhos da pós-graduação” Jacintho Maia Neto, informa que a ESG desenvolveu, ao longo de seus 70 anos, uma relação intrínseca com a ambiência da pós-graduação.

    Neto destaca que seu trabalho buscou apresentar e analisar como essa relação foi construída desde a sua criação em 1949, com base na análise documental e bibliográfica, com ênfase nos onze regulamentos que balizaram a estrutura organizacional da Escola.

    Ratifica que, com esse intuito, caminhou-se ao longo desse marco legal, extraindo as ideias e as ações norteadoras à construção dos diversos cursos, suas relações com a estrutura e o ambiente organizacional, buscando entender, também, os impactos que o ambiente externo provocava na Escola e suas reações com base na materialização de estruturas e cursos.

    Finaliza apresentando o caminho pelo qual a ESG decidiu conduzir seus cursos na direção da pós-graduação.

    No penúltimo artigo desta Revista, Ronaldo Gomes Carmona, entrega-nos seu trabalho intitulado: Pensamento geopolítico brasileiro: trajetória, grandes temas e desafios contemporâneos - Reflexões por ocasião dos 70 anos da Escola Superior de Guerra, no qual se propõe a analisar a trajetória do pensamento geopolítico brasileiro, seus grandes temas e autores, visando à reflexão sobre uma agenda de pesquisa tendo em vista sua atualização.

    Para isso, Carmona percorre, em seu texto, as bases de formação do território, do Estado nacional e da nacionalidade e apresenta um conjunto de ideias que permitiram grandes transformações no Brasil ao longo do século XX. Nesse contexto, examina a trajetória da ESG no que diz respeito à geopolítica brasileira e avalia os impasses relativos à renovação do projeto nacional após sua crise e óbices que se defronta para o desenvolvimento do projeto de Brasil - potência.

    Encerra, apresentando reflexões sobre uma agenda de pesquisa contemporânea para a geopolítica brasileira, que, segundo o autor, precisa avançar no sentido de formulação renovada que prepare o Brasil para a retomada de seu projeto de tornar-se uma grande potência a partir da próxima década deste século XXI.12

    O último artigo, de autoria de Pedro Paulo Levi Mateus Canazio, intitulado A Escola Superior de Guerra como o mais importante centro de estudos estratégicos do Brasil: uma visão de futuro, aborda a questão da revitalização da Escola Superior de Guerra (ESG) e de sua utilização efetiva pelo Estado Brasileiro como orientadora da aplicação do Poder Nacional no futuro de curto, médio e longo prazos, voltado para o fortalecimento da Nação com o fim específico de converter seu poder potencial em poder efetivo.

    Canazio acentua que o objetivo final de seu trabalho consiste em apresentar um conjunto de propostas para a atuação da ESG no futuro, de modo a que ela possa voltar e ter um papel predominante na orientação da aplicação do Poder Nacional e a assumir novos papéis necessários para subsidiar a atuação do Governo Federal na condução do Estado Brasileiro, na direção do atingimento e da consolidação do status do País como potência central no concerto das nações.

    Prezados leitores, esperamos que os artigos dessa revista possam representar uma amostragem dos grandes temas nacionais que são tratados no ambiente da ESG, com a colaboração de pesquisadores militares e civis, de diferentes formações e instituições acadêmicas, interessados na área do conhecimento Defesa e que vêm sendo tratados nesta Escola, desde sua criação em 20 de agosto de 1949.

    Boa leitura e que venham os próximos 70 anos.

    Amauri Pereira Leite

  • v. 33 n. 69 (2018)

    Editorial

        A revista do último quadrimestre de 2018, número 69, volume 33, é entregue ao leitor ao mesmo tempo em que o ano finda. Inéditos artigos já estão em processo para compor o próximo exemplar correspondente ao número 70, do volume 34, de 2019. Foram muito gratificantes as conversas que travamos durante este ano. A Revista da Escola Superior de Guerra deseja a manutenção desta parceria e a participação intensa entre autores, leitores e equipe de editoração.

        Os dois artigos de abertura versam sobre assuntos que, dependendo do contexto, aparecem com frequência nos noticiários internacionais. O primeiro com o título A geopolítica do Cáucaso: uma análise do conflito Nagorno-karabakh, subscrito por Helvécio de Jesus Júnior e João Ricardo Guilherme Zimmer Xavier, transporta-nos para a região do Cáucaso, que se reparte entre a Europa Oriental e a Ásia Ocidental, localizada nas águas do Mar Negro e do Mar Cáspio. Sendo uma área de fronteira entre Europa e Ásia, apresenta uma importância estratégica e política, além de possuir jazidas de metais e de petróleo, o que torna o local conflituoso, cujos embates entre azeris e armênios na área de Nagorno-Karabakh ainda estão em curso.
        O estudo subsequente, As relações entre Hizbullah e Hamas, rubricado por Felipe Haddock Lobo Goulart, traça as características e o histórico entre as duas forças não estatais islamitas do Oriente Médio: o Hamas é palestino e sunita; e o Hizbullah é libanês e xiita. O Hamas origina-se da Irmandade Muçulmana no Egito; o Hizbullah sofre influência da Revolução Islâmica iraniana. O autor chama atenção para a dinâmica do sistema entre esses grupos, como também ressalta a participação de estados como Irã e Síria.
    A terceira discussão, intitulada Submarinos e submarinistas, de autoria de José Augusto Abreu de Moura e Ana Fernanda Moreira Baptista, mostra que os submarinos se constituem em uma das armas mais valiosas do mundo contemporâneo: a “força de submarinos é uma demonstração da existência de um Poder Naval forte e estruturado”. Contudo sua missão para alcançar pleno êxito depende do correto funcionamento dos sistemas e da habilidade e prontidão daqueles que o tripulam. Os articulistas ainda procuram analisar as condições e a organização de trabalho no ambiente confinado de um submarino, visando ao cálculo do impacto delas sobre o comportamento dos sujeitos.
    No quarto texto, nomeado Hipótese de um Novo Plano de Investimento no Ministério da Defesa, Bruno Martini e Maria Célia Barbosa Reis da Silva modulam teórica e contabilmente um cenário onde o Ministério da Defesa dispusesse, a partir de 2018, de um orçamento crescente, até chegar aos 2% do Produto Interno Bruto do Brasil (PIB) em 2020, propondo melhorias que poderiam ser adotadas em prol do poder nacional.
    No quinto artigo – Forças Armadas na segurança pública: insegurança jurídica persistente, Haryan Gonçalves Dias e Tulio Endres da Silva Gomes destacam a missão atribuída às Forças Armadas nos últimos anos e observam os aparatos jurídicos – a Constituição Federal (CF), em seu artigo 144. Para eles, a Lei Complementar nº 97/1999 e o Decreto Presidencial nº 3.197/2001, que a regulam, não são suficientes para amparar e para conceder a “necessária segurança jurídica às ações das Forças Armadas no âmbito das competências policiais da segurança pública”. Urge, segundo os autores, que advenha a segurança jurídica às tropas federais em atividade na segurança pública, caso contrário, quem protege pode ser vítima de sua própria lei interna.
    O artigo ulterior, A logística baseada em performance e a logística militar do Exército Brasileiro, de Rodrigo Lima França, Alexandre Checheliski e Rodrigo Paim, tem como mote a pesquisa contextualizada das Forças Terrestres da atualidade. Os autores discorrem sobre “os aspectos positivos e negativos que devem ser observados para adoção da Logística Baseada em Performance, servindo,assim, como mais uma ferramenta de análise desse modelo, contribuindo com os debates levados a efeito dentro do Exército Brasileiro para a interiorização dessa prática logística na Instituição militar”.
        O penúltimo tema A Nova Estratégia Nacional de Defesa e o alinhamento do Programa Estratégico Guarani do Exército Brasileiro, escrito por Luciano Luiz Goulart Silva Dias, Alzeir Costa dos Santos e Carlos Eduardo de Franciscis Ramos, concede explicações sobre a importância do Projeto Guarani ao inserir uma Nova Família de Blindados sobre Rodas (NFBR), criada para transformar a Infantaria Motorizada em Mecanizada e atualizar as Unidades de Cavalaria, que empregam as Viaturas Blindadas de Transporte de Pessoal (VBTP) EE-11 Urutu desde 1974. O Programa Guarani contribui para a incrementação de novas capacitações que colaboram para “consecução dos Objetivos Nacionais de Defesa (OND), contribuindo para a Defesa Nacional, o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID) e a soberania do Brasil”.
    O derradeiro texto A importância da Reforma Goldwater-Nichols para a evolução da interoperabilidade nas Forças Armadas dos Estados Unidos da América, de Gustavo Garriga Calero Pires, Hercules Guimarães Honorato e Rejane Pinto Costa, elucida como uma Reforma, engendrada fora do ambiente castrense, acarretou mudanças substanciais no Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América do Norte, que se mantinha um tanto estático desde 1947 por ocasião da Lei de Segurança Nacional. Os autores desejam contribuir com esse estudo para a Defesa Nacional, posto que foram reveladas as características significativas do processo de interoperabilidade dos Estados Unidos, nação que exibe Forças Armadas poderosas.
        Aí estão os oito artigos. É nosso intento apresentá-los e torná-los alvos de interesse do leitor, seja ele um conhecedor dos assuntos ou apenas um iniciante nesses temas. Cabe, portanto, à equipe de editoração desvendar os liames entre os diferentes assuntos aqui expostos, abordar as características de conexão, de
    desdobramento, de inovação e de nexo com o nosso Programa de Pós-Graduação e com a nossa linha editorial.
        Reiteramos que nossa revista é de divulgação gratuita, todos podem acessá-la: quer por meio digital, quer, por solicitação, a edição impressa. Boa leitura e aguardamos sua cooperação: seja com artigos, seja com sugestões.
                                                                                                                                           

                                                                                                                                              Maria Célia Barbosa Reisa 

  • v. 33 n. 68 (2018)

    Editorial

    O pensamento brasileiro encontra sua origem na Europa e nos Estados Unidos, por isso, tantas vezes, as idéias migradas são assimiladas e aplicadas à nossa realidade. Nota-se que, nos últimos anos, os estudiosos do Brasil, voltados aos problemas e aos acertos nacionais, soltam as amarras externas e começam a observar o nosso país de dentro e a construir um pensamento crítico focado em um ideário condizente com a realidade brasileira.

    O preâmbulo inicial serve de apresentação para o número 68, correspondente ao segundo quadrimestre de 2018. Este é formado por oito artigos que atendem à linha editorial da Revista da Escola Superior de Guerra e tangenciam os temas do recém-criado Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID) da Escola Superior de Guerra e pensam prioritariamente o Brasil no contexto mundial hodierno. Alguns artigos patrocinam diálogos no primeiro olhar no sumário, pelo título; outros só reconhecemos os elos após a leitura. São autores e co-autores diversos que se esbarram e estabelecem parcerias sob a égide dos assuntos abordados.

    O texto primeiro deste número do periódico,O emprego das forças armadas como garantia da lei e da ordem do estado brasileiro, de autoria do quarteto Rodrigo Lima França, Luciano Melo de Oliveira Júnior, Orlando Mattos Sparta de Souza e Mariana Montez Carpes, mostra as interrogações suscitadas pelo tema-título, pelo alargamento do conceito de segurança nos documentos de defesa nacional e pelo entendimento da relação entre a Política de Defesa Nacional e o emprego do Poder Militar nas ações de garantia da lei e da ordem.

    O segundo texto sob o título Constitucionalidade da Lei12.970, de 8 de maio de 2014, rubricado por Régis Vinícius Silva Barreto e Ivan Muniz de Mesquita, inicia sua argumentação pressupondo o amplo escopo de interesse que cerca um acidente aeronáutico: tripulação, passageiros, público em geral, além dos envolvidos nas investigações que visam preservar vidas humanas e evitar outros acidentes da mesma natureza. O papel do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SIPAER)deve ser  o de compartilhar as informações obtidas com as demais autoridades. O artigo em pauta tem o objetivo “de analisar em que aspectos a doutrina jurídica aplicável ao SIPAER contribuiu para sustentar a constitucionalidade da Lei 12.970/14, perante o ordenamento jurídico brasileiro, entre o seu surgimento e o final do ano de 2017”.

    O relatório intitulado – Brasil na Antártica, os próximos 30 anos–, elaborado por Paulo Eduardo A. S. Câmara e Renato Batista de Melo, traduzido para o espanhol por Elza Elizabeth Durán de Menezes, apresenta a trajetória inicial no continente gelado, da assinatura do Tratado Antártico em 1978 até a participação do Brasil como membro consultivo em 1983. Como somente os países que desenvolvem pesquisas científicas de qualidade na Antártica têm direito ao voto sobre o futuro do continente, o Brasil, mesmo após o incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz, continuou, de forma intensiva, suas pesquisas. Esse artigo faz com que o leitor conheça os meandros desse santuário dedicado à paz, e à ciência e também exibe um breve histórico do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

    Em outra latitude, encontra-se a base de outra escrita, trata-se de Os estreitos no Oriente Médio e a segurança energética, assinado por André Figueiredo Nunes e Paulo Gilberto Fagundes Visentini, que analisam sob o olhar geopolítico as três relevantes rotas marítimas da região: Estreito de Ormuz, o Estreito de Babel-Mandeb e o Canal de Suez. O texto também enfoca a navegação através dos estudos “à luz do Direito Internacional apoiando-se em tratados internacionais como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982 e da Convenção de Constantinopla de 1888”.

    O quinto texto – A Agenda de Defesa Sul-Americana: reflexões sobre a problemática da integração, autoria dividida entre Flávio Henrique do Nascimento e Rafael Ribeiro Sales e Sylvio de Souza Ferreira – pondera acerca da problemática da integração regional de defesa, notadamente no mundo depois da Guerra Fria e questiona também o papel que cabe ao Brasil na integração e no desenvolvimento de uma agenda de defesa sul-americana. Para o entendimento da centralidade do Brasil no Complexo Regional de Segurança da América do Sul, foi necessário esclarecer alguns conceitos sobre Estado, defesa e integração.

    O sexto artigo intitulado A tradicional abordagem de sistemas de inovação é adequada para compreender processos nacionais de inovação?, de Lúcia H. T. Viegas,tem como propósito apresentar diferentes percepções sobre o enfoque sistêmico, destacando a abordagem dos Sistemas Nacionais de Inovação em suas etapas: a origem dos estudos sobre sistemas de inovação; o conceito dos sistemas de inovação globais, nacionais, setoriais e tecnológicos, conforme a literatura sobre inovação. Por derradeiro, são consideradas as limitações do emprego da abordagem tradicional de sistemas nacionais de inovação para a compreensão daqueles processos nacionais de inovação. Os esclarecimentos expostos pela autora tencionam mostrar “o significado do processo de fomento a inovações para o desenvolvimento da sociedade brasileira”.

    O penúltimo texto – Suporte logístico integrado: uma abordagem seletiva –, subscrito por Emerson Luís de Araújo Pângaro e Carlos Eduardo de Franciscis Ramos, visa evidenciar o quanto a logística não tem sido eficaz diante da crescente evolução e requisição no emprego operacional de tropas militares. O embargo parece residir na dificuldade em obter “o melhor custo-benefício na aquisição de novos sistemas complexos em sintonia com a vida útil estimada de cada sistema, o que parece apontar para a necessidade da implantação de práticas inovadoras nos processos de aquisição de sistemas militares de alta tecnologia.

    O último artigo sob o nome de Teste de Aceitabilidade na Metodologia de Planejamento Estratégico da Escola Superior de Guerra, preparado por Rafael Travincas Pinto, Eduardo Santiago Spiller e Fábio Comanduci Nascimento, apresenta um método em fase de estudo e avalia o possível resultado conseguido por meio do emprego do Método de Análise Hierárquica na seleção e priorização de linhas de ações estratégicas, em comparação com o teste de aceitabilidade, a contar da simulação de seu emprego na Metodologia de Planejamento Estratégico da Escola Superior de Guerra.A relevância, segundo os articulistas, do emprego do método está “em contribuir para a defesa, segurança e desenvolvimento uma vez que busca apresentar alternativa de priorização das linhas de ação estratégicas conservadas, de modo a subsidiar o processo de tomada de decisão e tornar o planejamento estratégico mais eficiente e eficaz”.

    Os textos que compõem este fascículo fazem-nos pensar o Brasil e o mundo ao derredor. Esperamos que a leitura deste exemplar lhes seja benéfica e instigue novos autores a fazer parte, como escritor ou ledor, da Revista da Escola Superior de Guerra.

  • v. 33 n. 67 (2018)

    Editorial

     

    O término da edição de uma revista científica significa a consolidação de um trabalho de equipe tanto por parte da editora como também por autores, pareceristas. Fecha-se uma edição, mas, em paralelo, a edição seguinte já está em curso. É um trabalho contínuo, ao mesmo tempo árduo e gratificante. Quando o periódico encerra seu ciclo de produção e chega às mãos do leitor, inicia-se o ciclo da recepção, do diálogo entre texto, leitor e autor. A aceitação de um periódico está ligada à atualização temática dos artigos, à fluidez do enunciado, à titulação do articulista, ao grau de cientificidade das publicações e à pertinência à linha editorial: critérios também mensurados para a classificação no Qualis.

    O endereço eletrônico dos autores tem como fito estimular o diálogo entre as partes envolvidas. Almejamos à aproximação entre os que dedicam parte do seu tempo ao trabalho acadêmico-intelectual, ao estudo e à descoberta de novos conhecimentos e à divulgação do resultado de suas investigações. Cremos que a Ciência não é monopólio de alguns, circunscrito a uma turma de iniciados que, pelo contrário, ela deve estar à disposição de todos que, de alguma forma, queiram compartilhar desse saber em constante movimento.

    Esta Revista assume como missão transmitir à sociedade e à academia os resultados de estudos e pesquisas. Com o recém-criado Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID) da Escola Superior de Guerra (ESG), nosso periódico adquire uma das finalidades basilares de um Programa em processo de avaliação: divulgar artigos de professores e alunos do Programa, da Escola e de outras Instituições de Ensino Superior cujo eixo temático seja atinente à Defesa.

    Neste fascículo, os dois primeiros textos versam acerca da segurança no estado do Rio de Janeiro. O texto inicial – As Forças Armadas, a Garantia da Lei e da Ordem e a Intervenção Federal –, de autoria de Reis Friede, explica, em consonância com o texto constitucional e com a legislação infraconstitucional, como se realiza, por ordem expressa da Presidência da República, a participação das Forças Armadas em operações da garantia da lei e da ordem (GLO). O autor também no correr da escritura do texto apresenta as possíveis consequências jurídicas desse tipo de situação de excepcionalidade. O texto denominado A crise de segurança pública do Rio de Janeiro: um impasse para o federalismo nacional, assinado por Luiz Carlos Ramiro Junior, conversa com o precedente ao traçar um diagnóstico da singularidade do colapso da Segurança Pública no estado do Rio de Janeiro. O articulista enfatiza “a crise de autoridade local, que leva a um entrecruzamento de competências e, por conseguinte, as consequências de um federalismo impróprio”.

    As três escritas subsequentes têm em comum os documentos que discorrem sobre a Defesa. Também mostra a semântica elástica e múltipla do vocábulo Defesa que se faz presente em debates cotidianos e de várias áreas do saber. Signo que explode nas ruas e nas academias, que motiva embates por parte de leigos e de iniciados. O terceiro texto intitulado A materialidade dos instrumentos de defesa na Amazônia, rubricado por Eduardo Siqueira Brick, Bernardo Salgado Rodrigues e  por Neila Sousa, aborda a Amazônia brasileira como uma fronteira crescentemente valorizada e muitos desafios e complexidades para enfrentar. Os autores fazem uma leitura da região a partir materialização dos instrumentos de defesa e, por conseguinte, dos documentos Estratégia Nacional de Defesa (END) e Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), que destacam “a necessidade de modernização das Forças Armadas, de suas diretrizes estratégicas e do desenvolvimento nacional” tendo como prioridade a Região Amazônica. O quarto artigo sob o título de O Poder Aeroespacial e a Estratégia Nacional de Defesa (END), escrito por Ivan Muniz de Mesquita, evidencia os fundamentos do Poder Aeroespacial e apresenta as principais atribuições da Força Aérea Brasileira auferidas pela Estratégia Nacional de Defesa (END). O quinto texto nomeado Gestão estratégica de Defesa: hipóteses de emprego versus capacidades, rubricado por Maria Filomena Fontes Ricco e Fábio Sahm Paggiaro, disserta sobre as questões atinentes à passagem do conceito-chave Hipóteses de Emprego, seguido no modelo de gestão estratégica de defesa no Brasil, para o conceito-chave Capacidades, conceito assimilado pelos Estados Unidos da América, países da Organização do Tratado do Atlântico Norte e Austrália. “No Brasil, esta questão surgiu na Estratégia Nacional de Defesa de 2008 e permanece inconclusa no Ministério da Defesa, para o que este relato pretende contribuir”.

    O sexto apresenta duas versões em Português e Espanhol, é um texto científico de alerta sobre assunto que submerso nas profundezas da Web é desconhecido por muitos usuários da Internet: A criminalidade na Deep WEB, cujo autor Flaviano de Souza Alves mostra, de forma didática, a rede de atos criminosos existentes na Deep Weeb e almeja apresentar os riscos a que os cidadãos estão expostos. O tema tem despertado crescente interesse, nos meios acadêmicos, militares, nas áreas de Defesa e Segurança e em áreas policiais.

    O penúltimo texto Formação militar: reflexões sobre a abordagem da inteligência cultural, criado por Alessandra Veríssimo Lima Santos e Marta Maria Telles, discorre sobre a Inteligência Cultural na formação dos militares das Forças Armadas brasileiras. Em um mundo globalizado com miríades de informações espargindo de e para todos os cantos do planeta, a importância de conhecer culturas distintas e saber com elas dialogar torna-se fundamental, o que requer aprendizado e treinamento.  

    O último texto O impacto da Guerra do Contestado no ideal reformador do Exército e na Política de Defesa Brasileira, assinado por Eduardo Rizzatti Salomão, traz, 112 anos depois de seu término, à mesa de debates “o impacto da Guerra do Contestado (1912-1916) nas políticas de modernização e reorganização do Exército Brasileiro no século XX”. O autor ainda tece considerações sobre mentalidade militar e o papel do Exército na sociedade brasileira.

    Textos previamente apresentados no aguardo da leitura e, por conseguinte, das reflexões e sugestões que podem advir do contato entre artigos e público.

  • v. 32 n. 66 (2017)

     Editorial

     

     O ponto quase final de cada edição de uma revista científica é decorrente de um trabalho conjunto e harmônico entre editor, Conselho Editorial, Conselho de Pareceristas, autores e revisores de língua portuguesa, inglesa e espanhola. Usamos “quase” porque o ponto final, se o há, só é posto pelo leitor que completa os textos com o seu olhar, com a sua crítica. Legamos ao nosso público a tarefa de inserir os pontos a partir dos vários olhares lançados sobre os oito artigos que agora lhe pertencem. Qualquer escrito só se consolida com a leitura do outro. Não escrevemos para engavetar textos, exercitamos esse ato endereçado ao pesquisador, estudioso ou ledor.

    No final dos minicurrículos de cada autor, há o endereço eletrônico com o fito de instigar o diálogo entre as partes envolvidas. Visamos, por conseguinte, à aproximação entre os que dedicam parte do seu tempo ao trabalho acadêmico-intelectual, ao estudo e à descoberta de novos conhecimentos e à divulgação do resultado de suas investigações. Acreditamos que a Ciência não pode ficar isolada em um feudo, restrito a poucos, mas que ela deve ser compartilhada entre muitos. Esta Revista, como outras cujos estudos têm afinidades, persegue a missão de transmitir à sociedade e à academia os resultados de estudos e pesquisas. Com o recém-criado Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID) da Escola Superior de Guerra (ESG), nosso periódico adquire uma das finalidades basilares de um Programa em processo de avaliação: divulgar artigos de professores e alunos do Programa, da Escola e de outras Instituições de Ensino Superior que possuam estudos congêneres à nossa linha editorial

    Este fascículo apresenta oito artigos que foram agrupados por peculiaridades diversas. Os dois primeiros artigos são bilíngues: Português e Inglês. Num futuro próximo, aumentaremos o número de artigos traduzidos do Português para o Inglês e para o Espanhol, almejando conquistar leitores de outras partes do planeta e, principalmente, os latino-americanos. Luiz Fumiaki Miwa, no primeiro artigo nomeado O processo de integração regional na América do Sul: uma abordagem do ponto de vista político-estratégico (The process of regional integration in South America: an approach from a political-strategic point of view), elabora uma análise político-estratégica acerca da integração da América do Sul como exemplo para a construção de um mundo menos bélico e mais harmonioso. A região da qual fazemos parte tem demonstrado essa índole pacífica por meio, entre outras ações, da criação do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e da União de Nações Sul-americanas (UNASUL).

    O segundo artigo, escrito originalmente em Inglês com o título When soldiers and traffickers clash: explaining violence against the State during Operation São Francisco, traduzido para o Português como Quando soldados e traficantes se chocam: explicando a violência contra o Estado durante a Operação São Francisco, assinado por Henrique Siniciato Terra Garbino e Adriana Erthal Abdenur, traz à tona tema cotidiano na mídia brasileira, principalmente nas grandes cidades: o embate entre soldados e traficantes. Os autores têm como recorte a Operação São Francisco, na qual um dos autores Henrique Siniciato atuou como Comandante de Pelotão de Engenharia da Força de Pacificação, fato que não inviabiliza o olhar científico dos pesquisadores: a prática vertida para ciência. Os articulistas apresentam duas ideias aparentemente conflitantes: “o número de homicídios atribuídos a cartéis supera as mortes em muitas guerras civis. Contudo, como o texto demostra, conflitos entre cartel e Estado são a forma mais rara de violência relacionada a drogas”.

    Os dois artigos subsequentes tecem um trabalho de memória que envolve a lembrança e o esquecimento. Jaqueline Santos Barradas e Jamylle de Almeida Ferreira assinam o estudo intitulado Memória Institucional na Escola Superior de Guerra: resultados preliminares e nele refazem parte da trajetória da Escola Superior de Guerra de 1949, data da concepção da Escola, a 2014, ano da criação da Memória Institucional, um setor do Centro de Conhecimento Científico e Cultural (C4). Memórias de Guerra: entre comemorar ou esquecer: o imaginário da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (1864-1870) como dificultador do processo de integração do MERCOSUL, de Edgley Pereira de Paula, é texto que revolve a Guerra do Paraguai da memória e, ainda, possibilita um diálogo com o primeiro artigo no que tange à integração da América do Sul. O autor discorre sobre o pensamento de curto-prazo (curtoprazismo) frente à tecnologia de informação de nossa época, os big data. “Esses conjuntos de dados, organizados, seriados no tempo e no espaço, podem apresentar novas análises e novos caminhos a seguir”.

                Os dois artigos consecutivos abordam assuntos que dizem respeito aos anseios estratégicos da Defesa Nacional. O quinto artigo, A infraestrutura Nacional e o atendimento às necessidades Estratégicas da Defesa Nacional, de autoria de Anselmo de Oliveira Rodrigues e Eduardo Xavier Ferreira Glaser Mignon, questiona e a infraestrutura de transportes no estado do Paraná utiliza a metodologia adequada ao contexto atual dos interesses da Defesa Nacional. O sexto artigo, Publicações Técnicas e a segurança de voo: uma apresentação do contexto da Força Aérea Brasileira, de Ana Patrícia Guimarães em parceria com Maria Célia Barbosa Reis da Silva, evidencia o quanto é fundamental a leitura dos documentos da área de manutenção técnica e a atualização e o uso correto das Publicações Técnicas para a segurança de voo e, por extensão, para a Defesa Nacional.

                O dois textos finais, com caminhos e abordagens diferentes, instituem o elo (ou o dialogismo) entre a Filosofia e na Ética. O título do sétimo texto, Relações político-militares entre 1964 e 1985: o desvelar de duas vocações, enuncia as reflexões de José Cimar Rodrigues Filho acerca das relações entre civis e militares no período em que o País foi governado pelos militares. O autor declara que, ao longo de sua pesquisa “deparou-se com uma questão incidental contraditória com hipótese aventada de que houve intenção dos governantes de afastar os militares da política, qual seja: como poderiam aqueles mandatários adotar tal atitude estando tão envolvidos nessa atividade?” O texto tem como suporte metodológico os critérios usados por Max Weber, e Rodrigues Filho associa ainda militares, ética e vocação política.

                O último texto intitulado Comunidade ética e intersubjetividade em Lima Vaz foi desenvolvido por Renon Pessoa Fonseca à época em que o autor era estagiário do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia, oferecido pela Escola Superior de Guerra. O trabalho propicia uma compreensão do pensamento filósofo do brasileiro Henrique Claudio de Lima Vaz no que diz respeito ao restabelecimento da relação entre ética e política. Por esses meandros, Renon, guiado por Lima Vaz, ressalta “a categoria intersubjetividade, instauradora da sociabilidade humana por meio do reconhecimento e do consenso que promove entre os homens no seio da comunidade ética, onde o ethos assim construído assegura a solidez do agrupamento estatal”.

     

    As temáticas em pauta neste número mobilizam-nos a pensar o Brasil e o mundo circundante. Desejamos que a leitura deste exemplar lhes seja proveitosa e estimule novos autores a fazer parte, como escritores ou como leitores, da Revista da Escola Superior de Guerra.

     

                                                                                                               

  • v. 32 n. 65 (2017)

    Editorial

     

      A finalização de cada número de uma revista científica é consequência de um trabalho conjunto entre editor, Conselho Editorial, Conselho de Pareceristas e de autores: os produtores de textos que escrevem sobre assuntos ligados à sua pesquisa e à linha editorial da Revista da Escola Superior de Guerra. É um rito de contribuição recíproca com o intento de romper as barreiras de isolamento daqueles que dedicam parte do seu tempo ao trabalho acadêmico-intelectual, à construção de novos conhecimentos e à divulgação do resultado de suas investigações. Todo conhecimento deve ser compartilhado entre muitos, não deve ficar restrito a poucos. Esta Revista, como outras cujos estudos têm afinidades, tem a missão de transmitir à sociedade e à academia os resultados de estudos e pesquisas. Com o recém-criado Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID) da Escola Superior de Guerra (ESG), nosso periódico assume uma das finalidades basilares de um Programa em processo de avaliação: divulgar artigos (internos e externos) capazes de instigar debates dissensos e consensos, e oferecer material de consulta para os integrantes da Escola.

    Os dois artigos iniciais da Revista da Escola Superior de Guerra, do segundo quadrimestre de 2017, contemplam assuntos que estão, na ordem do dia, na mídia, nos debates informais entre amigos e nos círculos acadêmicos. O primeiro texto intitulado O Islã e a civilização ocidental: reflexões de interesse preliminar ao estudo do fenômeno do terrorismo, assinado pela tríade Luis Adolfo Sodré de Castro Júnior, Anselmo de Oliveira Rodrigues e Eduardo Xavier Ferreira Glaser Mignon, versa sobre a relação existente entre o islamismo e o terrorismo. Os autores apresentam “aspectos históricos e culturais associados ao surgimento e à expansão do Islã ao longo do tempo”. O segundo texto nomeado Negligência estratégica na política diplomática com a Coreia do Norte, elaborado por Reis Friede, expõe um assunto inquietante para grande parte dos habitantes deste planeta: as farpas verbais trocadas por Donald Trump e Kim Jong-un, e efetivos testes balísticos e nucleares orquestrados pelo representante da Coreia do Norte. O articulista Friede ressalta que a atuação (ou a falta desta) por parte dos líderes norte-americanos”, desde a Guerra da Coreia, é uma das causas do atual momento crítico em escala global.

    O vocábulo “guerra” e a elástica carga semântica nele contida unem, de forma direta ou transversal, os dois textos subsequentes. No artigo denominado Paradigma tecnológico e guerra: a importância da inovação para o poder de combate, os autores Vinícius Damasceno do Nascimento e João Marcelo Dalla Costa dissertam acerca do atual paradigma tecnológico militar e a importância da inovação tecnológica no Setor Defesa para a formulação do poder de combate de uma Nação. Nascimento e Costa expõem o quanto o tripé – Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) – influencia na forma do Estado fazer guerra. O artigo nomeado As fronteiras do Estado: violência, milícias, crime organizado e políticas de segurança pública em áreas socialmente vulneráveis, de Gilberto de Souza Vianna e Pedro H. Villas Bôas Castelo Branco, aborda outro tipo de conflito que, apesar de aparentemente interno, tem repercussões e interações que vão além das fronteiras do município e do estado do Rio de Janeiro e do Brasil. Essa violência envolve áreas socialmente vulneráveis e atores que atuam nesse espaço como milicianos, traficantes, e outros que vivem sob o jugo de meliantes, sem a proteção do Estado.

    Os dois textos ulteriores têm como liame desenvolvimento, aquisições de material (ou armamentos) de defesa e modernização das Forças Armadas. O quinto artigo – Políticas & Aquisições de Defesa: uma análise histórica da parceria estratégica França-Brasil nos séculos XX e XXI é extrato da tese de Doutorado recém-defendida por Fernanda das Graças Corrêa. A autora pretende examinar as relações históricas entre França e Brasil na área de Defesa, desde as missões de instrução, aquisição de blindados até a entrada do Brasil nas eras supersônica, missilística e de asas rotativas, e determinar em que momento da história as relações franco-brasileiras se configuraram como parceria estratégica. No artigo posterior, O emprego dos Astros 2020 e sua subordinação: uma opção viável, produzido por Haryan Gonçalves Dias, destaca a modernização do Exército e discorre sobre o Projeto Astros 2020, “uma plataforma de lançamento de mísseis e foguetes de excepcional capacidade de prestar o apoio de fogo”.

    O sétimo artigo, La reconfiguración de América latina bajo el esquema de seguridad de la “Pax Americana” en el siglo XXI: el caso de la Alianza del Pacífico, é uma colaboração acadêmica de María del Pilar Ostos Cetina, escrita especialmente para nosso periódico. A autora mexicana analisa, sob a mira geopolítica, a configuração contemporânea da América Latina “a partir dos mecanismos de defesa e segurança que foram estabelecidos pelos Estados Unidos sobre a região que considera como sua ‘ilha continental’".

    O último artigo – O Brasil e as Operações de Paz, assinado por Ricardo Freire e Marcos Cardoso dos Santos, remete a uma ação que se interliga com os demais temas desenvolvidos neste número da Revista da Escola Superior de Guerra: Relações Internacionais, Estratégias de Guerra, Diplomacia, Segurança e outros. Este estudo ainda considera a presença de militares em países que necessitam de apoio após enfrentar situações-limite. Freire e ... escrevem acerca de conceitos gerais sobre as Operações de Paz conduzidas “sob a égide de organismos internacionais, apresentam um resumo da participação brasileira em tais Operações, bem como avaliam a articulação entre os segmentos da diplomacia e da defesa do Brasil nesse contexto.

                Esperamos que os artigos integrantes do número 65, volume 32, do nosso periódico ensejem debates para além do fechamento das páginas.

                Boa leitura!

     

  • v. 32 n. 64 (2017)

    Editorial

     

    O lançamento de um novo número da Revista da Escola Superior de Guerra é um ato a ser comemorado por muitas razões, entre elas, o árduo caminho percorrido por um texto científico – da submissão do autor até a publicação e, no interregno, muitos diálogos entre os atores que fazem parte do processo: autor, editor, assistentes de revisão, revisor de normalização das referências, pareceristas, diagramador e outros; a partilha do trabalho intelectual, tão solitário, que, de repente, pode ser difundido com os leitores e expandido por meio de outras publicações. A publicação é o momento de marcar seu espaço de pesquisa e expor resultados de estudos e investigações, para debate público, concretizando o intuito maior da ciência: provocar diálogos consensuais ou controversos, sedimentados nos princípios e nos métodos científicos.

    Este número inaugura uma nova periodicidade de nossa revista e a sua inserção no Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas, passos para que a Revista da Escola Superior de Guerra atenda aos critérios, às políticas e aos procedimentos de avaliação de periódicos científicos adotados pelo Projeto SciELO e, consequentemente, a admissão e a permanência de nosso periódico na coleção eletrônica SciELO Brasil.

                Este fascículo apresenta oito artigos que foram agrupados pelos pontos afins. O primeiro e o segundo artigo têm o papel do militar em momentos ápices da vida brasileira. O discurso acadêmico da primeira reflexão pode ser sintetizado no título poético O tinir de sabres na antessala: diplomacia e ação militar na questão do Acre, elaborado por Rosa Beatriz Madruga Pinheiro e Henrique Siniciato Terra Garbino, e fala sobre o comércio no mundo da borracha produzida nos seringais da Bacia Amazônica. Nesta época, uma leva de nordestinos, fugindo da seca, do desemprego e da falta de alimento, migra para o território do Acre, reconhecido como boliviano até 1903. Por um tempo, havia mais brasileiros que bolivianos, motivo gerador de uma tensão entre esses povos vizinhos, conhecida como Questão do Acre, considerada neste artigo como o período compreendido do Tratado de Ayacucho (1867) até o Tratado de Petrópolis (1903). Essa Questão “oferece exemplos claros da interdependência entre diplomacia e ação militar, bem como da articulação, inicialmente equivocada, dessas duas ferramentas da política externa.” O segundo estudo apresenta O papel do militar-estadista na construção do monopólio estatal do petróleo no Brasil, rubricado por Miguel Dhenin e Thiago Rodrigues. Retoma-se ao tema da luta dos militares nacionalistas em prol do monopólio estatal do petróleo que representava o progresso, a independência política, econômica e energética do país. O General Horta Barbosa esteve à frente de reuniões do Clube Militar, espaço de debates entre as diversas correntes. As reflexões advindas desses encontros redundaram na criação do Conselho Nacional do Petróleo.

                O terceiro artigo Estados Unidos, China e a geopolítica do petróleo no Atlântico Sul: uma análise sob a ótica da teoria dos complexos regionais de segurança, de Guilherme Sandoval Góes e Bruno Bahiense de Albuquerque e Silva, encontra-se com o segundo por meio do ouro negro, responsável pela cobiça e por muitas desavenças entre povos. O petróleo, como o principal combustível na matriz energética mundial, volta à cena nesta revista e no cenário econômico-político do Brasil. Ao contrário do que muitos anteviam sobre depleção das reservas globais para o início do século XXI, este século desperta com descobertas de enormes jazidas de petróleo no Atlântico Sul atraindo a cobiça especialmente dos Estados Unidos e da China, “ao mesmo tempo em que dinâmicas de securitização dessa fonte de energia desenvolvem-se em ambas as margens do Atlântico Sul”.

                O quarto e o quinto texto abordam assuntos diversos sob a ótica filosófica. O estudo As virtudes militares na pós-modernidade, subscrito por Igor Sidhartha Boëchat e Mark Imbeault, analisa a ética e as virtudes militares no mundo greco-latino e mostra as que ainda fazem sentido no universo pós-moderno. Aponta a necessidade dos militares das Forças Armadas confiarem nos valores que lhes são transmitidos para que estejam dispostos a lutar por causas que acreditam e que são relevantes para a paz no Brasil e no mundo. O quinto artigo A questão indígena brasileira: entre Jean-Jacques Rousseau e Auguste Comte, é posta em debate filosófico e antropológico por Flavio Costa Balod. Quando os “colonizadores- invasores” aqui chegaram, havia entre 5 a 6 milhões de índios livres, vivendo segundo seus hábitos e costumes milenares. Hoje, eles estão confinados a espaços denominados de terras indígenas. Mais ainda, muitas terras indígenas estão junto à faixa de fronteira o que pode colocar em risco, em termos, a soberania nacional. Velados ou revelados, interesses estrangeiros pela Amazônia e pelos recursos naturais situados em território dos nativos inquietam os que pensam a defesa dos interesses nacionais.

                O sexto artigo A inteligência geoespacial por satélites de interesse nacional do Brasil, fruto da reflexão de Bruno Martini auxiliado por Maria Célia Barbosa Reis da Silva, aborda o quanto a inteligência geoespacial ainda é pouco entendida, propagada e utilizada na maioria das nações. O texto acadêmico tece o conceito e o histórico dessa prática, suas proeminentes agências nacionais, “tipos e capacidades dessas plataformas orbitais em operação, armas antissatélites, satélites miniaturizados e infraestrutura em solo para consciência situacional da órbita da Terra”. O cenário internacional da inteligência geoespacial pode oportunizar a inserção do Brasil em lugares a serem explorados e preservados pelas Forças Armadas como o solo, mar e ar. Tanto o sexto quanto o sétimo texto centralizam seu ideário na inserção do Brasil e, por extensão da América do Sul, no cenário internacional.

    UNASUR y el Consejo de Defensa Suramericano (CDS) en su primer lustro de funcionamiento 2011-2016, uma contribuição do estudioso chileno Gustavo Aimone Arredondo, vem ratificar a importância da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e do Conselho de Defesa Sul-Americano para a região. O texto proporciona uma visão do papel do Conselho de incentivar políticas de cooperação no setor de defesa, de mostrar que os sul-americanos são capazes de ombrear suas opiniões com as de grandes potências e entrar no cenário juntos para exibir nossa identidade, nossas tradições tão ricas e tantas vezes relegadas à posição não tão privilegiada. Gustavo ratifica o desejo de transformar a América “a América do Sul em uma Zona de Paz”.

    Este fascículo acadêmico fecha-se com a aplicação dos estudos do militar prussiano Clausewitz no exame da Logística de Defesa do Brasil, no âmbito do século XXI. Daniel Mendes Aguiar Santos e Fábio Alexandro Dockhorn de Oliveira trazem, para Logística de Defesa do Brasil no primeiro quartel deste século, a trindade do notável guerreiro e teórico da guerra. O artigo – Clausewitz e a complexidade no século XXI: visitando opções para a logística de defesa no Brasil – expõe a influência do pensamento do militar e da complexidade do cenário conflitivo contemporâneo sobre a Logística de Defesa, tanto na esfera internacional, quanto doméstica.

    Nota-se que autores renomados com grande capacidade de reflexão e de elevado conhecimento teórico dos campos em que atuam escrevem para nossa revista. Visitar, por meio da leitura, seus conhecimentos e suas descobertas é ser, de certa forma, um ator do mundo atual: tão rico em informações e, ao mesmo tempo, tão fragmentado. Esses artigos incentivam e convocam novos autores para participarem do luminoso caminho do saber.

    Enviem sugestões para nossa revista, dialoguem pelo endereço eletrônico com nossos autores. Boa leitura!

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